Zurique Suíça
Quem nunca sonhou em um dia poder passear por um
cenário de presépio, com direito a casas com telhados cobertos de neve e
pista de patinação? E, se esse presépio for considerado o segundo
melhor país do mundo para se viver, melhor ainda. Assim é a Suíça, no
centro da Europa, ilhada por Alemanha, França, Itália e Áustria. Com
seus cerca de 7 milhões de habitantes, a Suíça amealhou o segundo lugar
no recente estudo da revista inglesa "The Economist", ficando
atrás apenas da Irlanda.
O ranking, que está no estudo anual The World in 2005,
acaba de ser publicado e avalia não só a economia dos países, mas
outros fatores importantes, como saúde, liberdades públicas, empregos,
clima, estabilidade política, segurança, igualdade de sexo, vida social
e até mesmo taxa de divórcio. Não é difícil descobrir o porquê do
êxito. A começar pelo transporte público. Cerca de 20 mil quilômetros
de linhas de trem, ônibus e barcos recortam os quatro cantos do país,
que tem área menor que a do Estado do Rio. E não estranhe se, ao pegar
um desses meios de transporte, o horário estiver detalhadamente
especificado como 10h23 ou 17h52. No país do relógio, a precisão é
impressionante e não dá chance aos desavisados.
Para usufruir da rede de transporte, a dica é esquecer
os automóveis e comprar o Swiss Pass, que dá direito a viagens
ilimitadas em todo o sistema suíço - seja ele de transporte urbano,
trem, barco ou ônibus -, além de dar desconto de 25% em grande parte dos
bondinhos que levam os turistas até o topo das montanhas. Oito dias de
Swiss Pass custam US$ 360 e US$ 240 e, 15, US$ 440 e US$ 290, em primeira
e segunda classes, respectivamente. Ainda há opções de quatro dias, 22
dias e um mês. A diferença de conforto entre primeira e segunda classes
é quase irrelevante. Alguns trens contam com vagão-restaurante e até
vagão-playground.
E é exatamente pela janela dos trens a melhor maneira
de se conhecer o país. Na Suíça, entre as cidades mais importantes -
como Zurique, Genebra e Berna -, há trens de meia em meia hora. Nos fins
de semana, é comum ver casais, famílias e grupos de adolescentes
viajando de trem para aproveitar o dia nas estações de esqui. É que,
além de ser a terra do canivete e do chocolate, a Suíça também é o
paraíso do esporte de inverno. Foram os suíços que inventaram o esqui,
que hoje é praticado em mais de 200 estações, algumas, como a de
Zermatt, abertas durante o ano todo.
Não à toa. O país é formado em 60% de seu
território por cadeias montanhosas - Alpes e Jura. Na alta temporada, de
15 de dezembro até a Páscoa, cerca de 1.200 teleféricos entram em
ação. Mas entrar no bondinho para descer a montanha na hora do rush, por
volta das 16 horas, quando o sol começa a se pôr, é mais ou menos como
enfrentar o metrô de São Paulo. É preciso esperar duas ou três viagens
para, só assim, conseguir chegar ao destino. Nesta época, os centros de
esqui chegam a ter cinco vezes mais habitantes que o habitual.
No verão, quando a temperatura fica em torno dos
20°C, o país é procurado por amantes de mountain bike. Ao todo, oferece
nove rotas, com um total de 3.300 quilômetros de ciclovias. Assim como é
feito com os esquis, é possível alugar bicicletas (US$ 35/dia). O
visitante pode se informar nos centros de informações ao turista. Na
maioria das vezes, o escritório fica na própria estação de trem.
A culinária suíça investe nas batatas. A mais
tradicional é a rvsti, que é cozida, depois ralada e assada ao forno com
sal e pimenta. O salsichão também é consumido em grande quantidade e
vendido nas ruas das grandes cidades, em barraquinhas, por cerca de US$ 7.
Há opções de salsichão branco (vitela) e vermelho (porco).
O fondue e a raclete também fazem parte do cardápio,
mas há algumas diferenças entre o fondue brasileiro e o suíço. O
fondue de queijo, por exemplo, tem como acompanhamento, além de pães,
frutas como pêra, kiwi e carambola, cogumelos, picles, tomate-cereja e,
é claro, batata. Já o de carne pode ser feito no óleo ou cozido na
água com temperos.
De um lado, a sede dos grandes bancos e o mercado de
luxo das grifes internacionais. Do outro, dezenas de aconchegantes cafés,
floriculturas e galerias de arte. Zurique, a maior cidade da Suíça,
consegue agregar todas as facilidades - e o glamour - de uma metrópole
sem deixar de lado o ar interiorano.
Em uma simples caminhada, partindo da estação central
de trem, já se pode sentir o clima ambíguo da cidade. A mundialmente
conhecida Bahnhofstrasse, a 5ª Avenida suíça, com seus charmosos
bondinhos, concentra as sedes dos bancos suíços - e suas caixas-fortes
cheias de ouro que dão à cidade o posto de maior mercado de barras de
ouro do mundo -, além da badalação das grifes.
Na medida que se caminha em seus 1.400 metros, a
Bahnhofstrasse vai se tornando um desafio aos bolsos menos abastados.
Próxima à estação estão as grandes lojas de departamentos, como
C&A e H&M - que tem a brasileira Isabeli Fontana como
garota-propaganda. Mais próximo ao lago Zurique, onde a via acaba, ficam
espalhadas as mais luxuosas, como Armani, Prada, Chanel e Gucci. E, por
toda extensão da Bahnhofstrasse, estão inúmeras casas da mais famosa
marca de chocolates suíços, a Sprüngli, onde uma pequena caixinha com
quatro trufas pode custar US$ 16. Pouco antes de chegar ao lago Zurique,
de onde nos dias de boa visibilidade partem barcos turísticos, está o
Banco Nacional Suíço, mais especificamente na Stadthaus Anlage. Dois
dias por semana - às terças e quintas -, a praça abriga uma feira
popularmente conhecida como feira de Beverly Hills, já que por lá
desfilam as mulheres mais endinheiradas da cidade em busca de flores e de
alimentos frescos.
No entanto, basta atravessar uma das pontes do rio
Limmat, que corta a cidade e desemboca no lago Zurique, para dar de
encontro com a parte mais provinciana, a Cidade Velha. É lá o lugar
ideal para se tomar despretensiosamente um café e se imaginar no passado.
Uma boa dica é o Café Odeon (Limmatquai, 2), inaugurado há exatos 93
anos, que já teve entre suas mesas clientes como os dadaístas Hugo Ball
e Augusto Giacometti. O Odeon, que hoje reúne uma mistura curiosa de
alternativos e senhores conservadores, também era freqüentado por Lenin
e Thomas Mann.
A menos de um quarteirão está outro ponto tradicional
do centro antigo, o Restaurante Kronenhalle (Rdmistrasse, 4), onde um mero
chocolate quente pode custar US$ 16. Pudera, o turista que se propor a
pagar a bebida poderá degustá-la com um olho em uma tela de Pablo
Picasso e outro em uma obra de Joan Miró. O restaurante também conta com
autênticos quadros de Marc Chagall e Henri Matisse, que, assim como os
primeiros, costumavam presentear o dono do estabelecimento, Gustav Zumsteg.
As ruelas do centro antigo remetem à época em que a
cidade ainda era chamada de Turicum e funcionava como posto alfandegário
de Roma. Também abrigam a maior parte das cem galerias da cidade, algumas
de suas 1.100 fontes - a maioria de água potável - e mais um punhado de
endereços charmosos, como uma padaria na Oberdorfstrasse que serve
cookies e outras delícias em um balcão estrategicamente improvisado numa
janela.
Se há um passeio obrigatório em Zurique é
percorrê-la a pé e apreciar cada um de seus segredos. A maior parte de
seus atrativos culturais - como o Museu Nacional Suíço e as três
igrejas cujas torres se destacam no horizonte da cidade - ficam próximos
uns dos outros, o que facilita a vida do viajante.
Os mais preguiçosos, no entanto, podem usufruir da
facilidade dos bondinhos elétricos e do ZürichCard, que dá direito a
transporte livre e a entrada franca em 43 dos 50 museus da cidade. O
cartão de 24 horas é vendido a US$ 17, e o de 48 horas, a US$ 34.
A dica é começar o passeio pela estação central de
trem, que esconde em seu subsolo dezenas de lojinhas de suvenires com
preços camaradas. Exatamente atrás da estação, oposta à saída da
luxuosa Bahnhofstrasse, está o Museu Nacional Suíço (Museumstrasse, 2),
que, aos mais desavisados, pode parecer um autêntico castelo medieval. Em
seus três andares está exposta uma extensa coleção de objetos
produzidos na Suíça, como armas, uniformes, bandeiras, moedas,
relógios, móveis, quadros e esculturas, que remontam a história do
país.
Partindo do Museu Nacional Suíço, siga pela
Bahnhofstrasse até chegar à Poststrasse. Esse é o endereço da
Fraumüster, uma das mais conhecidas igrejas do país, que abriga cinco
belíssimos vitrais de Marc Chagall. A igreja foi fundada em 853, pelo rei
Ludwig, da Alemanha, para servir como templo de um convento para donzelas
da nobreza. Hoje, é ponto obrigatório para qualquer turista.
Atravessando a ponte, chega-se à Grossmüster,
considerada a igreja matriz da reforma protestante suíça. Datado do
século 12, o templo tem painéis de Augusto Giacometti. Por apenas US$
2,20, é possível subir à sua torre e apreciar uma bela vista da cidade.
Da Grossmüster também se avista a St. Peter's Kirche, igreja que fica a
poucas quadras dali e tem o maior relógio da Europa, com 8,7 metros de
diâmetro. A melhor surpresa, no entanto, é, sem dúvida, o Zurichhorn, o
parque da cidade, que fica às margens do lago e a alguns quilômetros do
burburinho do centro. No verão, o parque se transforma em uma espécie de
balneário, com direito até a areia para a prática de vôlei de praia.
Nos dias frios, a paisagem não é menos interessante: dezenas de
crianças e casais costumam passear por seu gramado no fim da tarde para
apreciar o pôr-do-sol de um dos pontos mais privilegiados de Zurique.